domingo, 7 de setembro de 2008

COMUNIDADE ZANGUÊ - ITABAIANA - ECOTURISMO.






CENTRO FEDERAL DE EDUCAÇÃO TECNOLÓGICA DE SERGIPE
COORDENADORIA DE ECOTURISMO


ANDERSON SANTOS OLIVEIRA
JOSÉ ALCIDES SEVERO DOS SANTOS


RELATÓRIO FINAL

Aracaju-SE
2008
CENTRO FEDERAL DE EDUCAÇÃO TECNOLÓGICA DE SERGIPE
COORDENADORIA DE ECOTURISMO

ANDERSON SANTOS OLIVEIRA
JOSÉ ALCIDES SEVERO DOS SANTOS

RELATÓRIO FINAL


Relatório apresentado ao Centro Federal de Educação Tecnológica de Sergipe, como um dos requisitos para conclusão da graduação no Curso de Ecoturismo, sob a orientação da Professora Nara Vieira.

Aracaju – SE
2008

Profº Severo D'Acelino
____________________________________________¬
Supervisor de Estágio



____________________________________________¬
Supervisor de Estágio do Curso de Ecoturismo


Profª Nara Vieira
___________________________________________¬
Professor Orientador do Estágio


Andersdon Santos Oliveira e José Alcides Severo dos Santos
____________________________________________¬
Estagiário

Nota Final: _(9.0)______


AGRADECIMENTOS


Agradecemos a Deus por nos ter concedido disposição, força, para vencer todas as dificuldades encontradas no decorrer dessa jornada. Nossa família, amigos pelo apoio e compreensão nesse período em que estivemos ausentes.

Ao Professor Severo D’Acelino, Casa de Cultura Afro Sergipana, nos concedeu este estágio muito importante,
Ao Professor Wanderley Oliveira, historiador e funcionário do Arquivo Público de Sergipe, também dedicou seu tempo e labutou conosco.
À Agente de Saúde do Povoado Zanguê, Maria Josefa da Cruz Lima muito atenciosa nos desprendeu seu tempo
Ao INCRA – Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária;
Ao Arquivo Judiciário;
E as demais instituições que colaboraram com a realização deste estágio.
Agradecemos em especial à professora Nara Vieira pela orientação e apoio em todos os momentos.


SUMÁRIO


1. INTRODUÇÃO ......................................................................................................... 06
2. COMUNIDADE QUILOMBOLA NO BRASIL .................................................... 08
3. COMUNIDADE ZANGUÊ EM ITABAIANA-SE ................................................ 14
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS ................................................................................ 23
REFERÊNCIAS ............................................................................................................... 25


I – IDENTIFICAÇÃO DOS ESTAGIÁRIOS
Nome: Anderson Santos Oliveira
José Alcides Severo dos Santos
Ano: 2008/01 Período: 6º
Curso: Ecoturismo
II – IDENTIFICAÇÃO DO ESTÁGIO

Objetivo: Análise de comunidade remanescente de quilombolas em Sergipe.
Período de realização do estágio: de 25 / 03 / 2008 até 28 / 07 / 2008.
Carga horária diária: 05 h
Disciplinas correlatas: Metodologia da Pesquisa; Introdução à Sociologia; Cidadania e Ética; Sociedade, Cultura e Ecoturismo; Educação Ambiental; Direito Ambiental; Desenvolvimento Econômico e Sustentabilidade; Gestão Ambiental em Ecoturismo; Ecoturismo I e II e, Ecoturismo Rural e Urbano; e, Turismo e Inclusão Social.

1 – INTRODUÇÃO

O presente relatório tem por objetivo descrever as comunidades quilombolas, com destaque ao Povoado Zanguê, localizado no município de Itabaiana-SE. Tal escolha foi motivada pela possibilidade histórica deste povoado pertencer a uma comunidade de remanescentes quilombolas.
Todo o estágio esteve compreendido no levantamento de dados sobre as comunidades quilombolas, além da realização de visitas técnicas onde pudessem ser levantadas maiores informações acerca da comunidade Zanguê.
Os quilombos, por serem minorias, não recebem o devido valor. Entretanto, apresentam, em conjunto com o entorno, potencialidade ecoturística, na medida em que apreendam os preceitos necessários para a realização de tal atividade econômica tirando dela proveitos e não permitindo a perda da valorização cultural.
De acordo com dados do Instituto de Nacional de Colonização e Reforma Agrária – INCRA – em Sergipe existem cerca de 14 comunidades quilombolas, sendo apenas 01 reconhecida oficialmente, 12 com processos abertos no Instituto e 01 em processo de identificação e delimitação da área. Em todo o Brasil esse número aumenta e demonstra a real participação dos quilombolas na estrutura social brasileira.

Consagrado pela Constituição Federal desde 1988, o povo quilombola tem direito a delimitação de áreas e propriedade das terras ocupadas. Entretanto, existem os conflitos por posse da terra e os processos são demorados. Outros povos, como pode ser o caso do Povoado Zanguê, não possui conhecimento acerca de seu passado e não chega a iniciar o processo junto ao órgão competente, o INCRA. O Artigo 68 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias (ADCT) diz que: “Aos remanescentes das comunidades dos quilombos que estejam ocupando suas terras é reconhecida a propriedade definitiva, devendo o Estado emitir-lhes os respectivos títulos.”

Diante dessa realidade, apesar de suas limitações, o estágio voltou-se ao levantamento de dados acerca do povo quilombola e da comunidade que vive no Povoado Zanguê, além de analisar as potencialidades ecoturísticas da localidade. A relevância deste trabalho é também um obstáculo ao mesmo, ou seja, a importância do mesmo se fundamenta na ausência de muitas pesquisas acerca do povo quilombola, ao passo que o estágio encontrou dificuldade em encontrar bibliografia na área.


2 – COMUNIDADE QUILOMBOLA NO BRASIL

As comunidades remanescentes de quilombos são verdadeiros núcleos de resistência histórica, abrigam a população negra escravizada e desprovida de acesso a políticas públicas educacionais, de saúde, habitação e trabalho. A identidade étnica de um grupo é a base para sua forma de organização, de sua relação com os demais grupos e de sua ação política. A maneira pela qual os grupos sociais definem a própria identidade é resultado de uma confluência de fatores, escolhidos por eles mesmos: de uma ancestralidade comum, formas de organização política e social a elementos lingüísticos e religiosos.

O que caracterizava o quilombo, portanto, não era o isolamento e a fuga e sim a resistência e a autonomia. O que define o quilombo é o movimento de transição da condição de escravo para a de camponês livre, como demonstra a citação a seguir.

Contemporaneamente, portanto, o termo não se refere a resíduos ou resquícios arqueológicos de ocupação temporal ou de comprovação biológica. Também não se trata de grupos isolados ou de uma população estritamente homogênea. Da mesma forma nem sempre foram constituídos a partir de movimentos insurrecionais ou rebelados, mas, sobretudo, consistem em grupos que desenvolveram práticas de resistência na manutenção e reprodução de seus modos de vida característicos num determinado lugar. (ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE ANTROPOLOGIA – ABA, 1994).


As comunidades remanescentes de quilombos caracterizam-se, em sua maioria, por serem de predominância negra, rurais, com atividades sócio-econômicas que integram a agricultura de subsistência, atividades extrativas minerais e vegetais, pesca, caça, pecuária tradicional (pequena quantidade de animais de pequeno, médio e grande portes), artesanato e agroindústria tradicional e/ou caseira voltada principalmente para a produção de farinha de mandioca, azeites vegetais e outros produtos de uso local que normalmente são comercializados também.

Isto, contudo, não significa que todas comportem todos esses sistemas de produção, posto que o arranjo dos sistemas produtivos tradicionais a cada uma dessas comunidades dependem principalmente da potencialidade produtiva do meio ambiente onde estejam inseridas. Genericamente, as comunidades remanescentes de quilombos conjugam áreas individuais e áreas de uso comum quando da execução das atividades produtivas.

Calcula-se que, no Brasil, existam hoje cerca de 2.842 comunidades quilombolas, segundo dados do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária – INCRA. Ressalta-se, porém, que nem todas foram reconhecidas e / ou possuem sua área delimitada. Remanescentes dos quilombos são repúblicas de homens e mulheres livres formadas pelos escravos que se livraram do cativeiro e partiam para a vida nova.
Destas, 22 comunidades encontram-se em Sergipe, sendo reconhecidas pelo INCRA ou em processo de reconhecimento – espalhadas ao longo do Estado, cada uma com suas próprias questões sociais, culturais, territoriais, guardando saberes de tempos perenes e persistindo, sobrevivendo e resistindo.

Distribuídas em: Mocambo - Porto da Folha, Serra da Guia - Poço Redondo, Lagoa dos Campinhos - Amparo do São Francisco, Rua da Palha - Santa Luzia do Itanhy, Pedra Furada - Santa Luzia do Itanhy, Castro - Santa Luzia do Itanhy, Cajazeiras - Santa Luzia do Itanhy, Taboa - Santa Luzia do Itanhy, Pedra D'água - Santa Luzia do Itanhy, Bode - Santa Luzia do Itanhy, Botequim - Santa Luzia do Itanhy, Desterro – Indiaroba, Caraíbas – Canhoba, Mussuca– Laranjeiras, Povoado Forte – Cumbe, Pontal da Barra - Barra dos Coqueiros, Ladeiras – Japoatã, Paioba – Japaratuba, Catauba - Frei Paulo, Brejão dos Negros - Brejo Grande, Pirangy – Capela, Maloca – Aracaju.

2.1 – Histórico

O continente africano foi ao longo de quatro séculos o centro das atenções, da cobiça, da apropriação, da acumulação de capitais e da reestruturação das sociedades e do estado. Nos séculos XVII e XVIII vão se constituir as mais importantes e duradouras extensões territoriais das rotas do tráfico negreiro: as Costas da Mina e de Angola. É nesse período que vão ocorrer os maiores volumes de povos africanos transportados para o território brasileiro.

Os grupos sociais revelam a variedade de formas pelas quais estes conseguiram a liberdade e os seus respectivos territórios. Do mesmo modo, revelou-se que muitos desses grupos sociais se formaram antes da Abolição, entretanto houve aqueles que se constituíram posteriormente. As formas como conquistaram as terras que moram e trabalham variam, tendo como os motivos mais relevantes a rebeldia seguida de fuga, prestação de serviços guerreiros em períodos de guerras ou rebeliões, prestações de serviços religiosos, desagregação de fazendas de ordens religiosas, ocupação de fazendas desagregadas devido a enfraquecimento econômico, compra e doação ou herança.
As estatísticas oficiais afirmam o Brasil como a segunda maior nação de povos de matriz africana do planeta. Entretanto, nos grandes centros é possível verificar, sem consultar dados sofisticados, a segregação sócio-espacial evidente. Os piores lugares da sociedade são ocupados, predominantemente, por populações afro-brasileiras.

No Brasil quando se fala em quilombos logo se aciona a idéia de negros fugitivos que se escondiam no seio mais longínquo das florestas. Isto se deve a uma interpretação datada de 1740, quando o Conselho Ultramarino consultado pelo rei de Portugal sobre esses grupos sociais respondeu que Quilombo seria “toda habitação de negros fugidos, que passem de cinco, em parte despovoada, ainda que não tenham ranchos levantados e nem se achem pilões nele

Por se tratar de uma afirmação oficial este conceito passou a prevalecer nas considerações do senso comum e de muitos cientistas sociais que durante o século XX escreveram sobre o tema, deixando sempre transparente a idéia de negros fugidos e isolados negros, ainda que em seus escritos registrassem as relações sociais, principalmente de troca, que esses grupos sociais mantinham com setores da sociedade escravista.

2.2 – A Questão da Terra

O principal objetivo dos Quilombolas é ter o poder que eles determinam ter sobre a terra. De forma a formular e implementar políticas de ações afirmativas com vistas a promover a demarcação, regularização fundiária e titularidade das terras, conforme o artigo 68 das Disposições Gerais e Transitórias da Constituição Federal e o Decreto 4.887 de 20 de novembro de 2003, bem como a execução de políticas em diversas áreas nessas comunidades.

Na Lei de Terras do Brasil, de 1850, os africanos e seus descendentes foram excluídos da categoria de brasileiros e classificados apenas como libertos. Mesmo que tivessem comprado, herdado ou recebido terras em doação, eram freqüentemente expulsos dos territórios escolhidos para viver. Assim, para o povo quilombola a terra sagrada e comunitária passou a ter outro significado: a luta para mantê-la, exatamente como faziam os seus ancestrais. É notável o esforço do Estado no sentido do reconhecimento e da regularização dessas terras, mas, compreendemos ser necessário a participação da sociedade civil organizada e capacitada para agregar forças que possam propor e executar ações dentro e fora da esfera de governo que possam contribuir para solucionar os problemas desses grupos sociais.

Um dos componentes geográficos fundamentais presente nas comunidades quilombolas do Brasil é a edificação com função comunitária, como a casa de farinha, como um galpão onde se dá a produção de utensílios domésticos e o artesanato, um templo, elementos que assumem papel importante na estruturação da geografia quilombola. Outro aspecto importante é a forma de distribuição das construções, que ocorre de maneira mais esparsa no território, tendo como referência o antigo quinhão de terra, geralmente aos cuidados de uma família quilombola.

A identidade quilombola é refletir sobre a territorialidade complexa, multifacetada diversa do país. Continuam vivas nestes lugares tradições religiosas e festivas de candomblé, reisado, artesanato, maracatu, danças e capoeira. Culturas milenar que simboliza as tradições e resistências dos povos afro-descendentes.
Há uma divergência devido a questões políticas, o desconhecimento por parte da população e a negação por alguns integrantes devido o medo da inferioridade da aceitação pela questão racial. Alguns são descendentes de famílias de escravos devido a forma de organização do local.


2.3 - Legislação

Além da Constituição Federal de 1988, existem outros atos do poder público que legislam acerca das comunidades quilombolas, entre estes, destaca-se o Decreto nº 4.887de 20 de novembro de 2003 que “Regulamenta o procedimento para identificação, reconhecimento, delimitação, demarcação e titulação das terras ocupadas por remanescentes das comunidades dos quilombos de que trata o art. 68 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias”.
Outro ato que merece destaque é o Decreto nº 6.040 de 07 de fevereiro de 2007 que institui a Política Nacional de Desenvolvimento Sustentável dos Povos e Comunidades Tradicionais. Neste documento lê-se o Artigo 215:

O Estado garantirá a todos o pleno exercício dos direito culturais e acesso às fontes da cultura nacional, e apoiará e incentivará a valorização e a difusão das manifestações culturais.
§1º O Estado protegerá as manifestações das culturas populares, indígenas e afro-brasileiras, e das de outros grupos participantes do processo civilizatório nacional.


De igual modo, a criação da Fundação Cultural Palmares também é um marco na luta pelos direitos dos remanescentes quilombolas. Através do Decreto 4.887, ficou instituído que:

Art. 5º Compete ao Ministério da cultura por intermédio da fundação cultural palmares.
Assistir e acompanhar o Ministério do Desenvolvimento Agrário e o INCRA nas ações de regularização fundiária, para garantir a preservação da identidade cultural dos remanescentes das comunidades dos quilombos, bem como para subsidiar os trabalhos técnicos quando houver contestação ao procedimento de identificação e reconhecimento previsto neste Decreto.


A legislação brasileira possui ainda uma série de outros atos e políticas que dizem respeito ao povo quilombola.

3 – COMUNIDADE ZANGUÊ EM ITABAIANA-SE

Durante a pesquisa foram realizadas visitas técnicas ao povoado Zanguê em Itabaiana-SE, onde se buscou respostas a alguns tópicos: Histórico do local, origens da comunidade; Composição familiar, estrutura e organização da comunidade; Relações da comunidade, lideranças, religiosidade; Aspectos econômicos e relações com o meio ambiente; Assistência governamental: educação, saúde, transporte, saneamento, comunicação, entre outras.
O Povoado Zanguê, com nome de origem africana, fica localizado na encosta da Serra de Itabaiana, uma região com muitos riachos, afluentes do rio Jacarecica. Existem relatos de que neste local refugiavam-se os negros fugidos na época da escravidão.
Sebrão (2003) explica a localização e origem da nomenclatura do Povoado Zanguê:
Cidade de Itabaiana, Taboleiro dos Caboclos, Silvestre, Rio da Jacaracica e Zanguê a duas léguas, entre Bom Jardim ao sul e Cova da Onça ao norte, assente na altiplanura de sua serra, montanha que se ascende imperceptivelmente, tendo em o flanco setentrional, à feitura de cordas esticadas, enorme boqueirão, por onde se despeja o poético Jacaracica em busca do rio Sergipe (SEBRÃO, 2003, p. 265).

E continua:
O nome íncola de sua taba, epônima da serra – Çamguê, apócope de çama corda e guê recíproco e nosso s, como sinal de pluralidade, isto é, cordas. O nome foi conservado pelo conquistador português, mas como o ç cedilhado inicial do tupi soa, quase, como z, aquele transformou o vocábulo metatesicamente, grafando-o Zanguê (SEBRÃO, 2003, p. 265).


A base da economia é a produção agrícola, baseada na policultura, ou seja, cultivo de várias espécies simultaneamente (Fig. 01). Os produtos mais cultivados são: batata doce, amendoim, inhame, macaxeira e frutas como jaca e manga. Há o cultivo de ervas medicinais para a cura de doenças a partir de um composto natural chamado “lambedor”. A pesca é só para consumo familiar e de amigos. Não há venda de peixe. A produção é repassada para atravessadores que revendem os produtos, principalmente, na feira de Itabaiana.

Fig. 01 – Típica Casa de Barro na Comunidade Zanguê com roça de subsistência
Fonte: Acervo Pessoal

Sebrão (2003) afirma ainda que a “população de Zanguê é ainda mais acanhada que a de Bom-Jardim”. Diz ainda que “a agricultura desenvolve-se bem no vale do Jacaracica: centenas de sítios constituem hoje, o que, antigamente, fora uma fazenda de criatório” (SEBRÃO, 2003, p. 265).
Outra forma de atividade econômica é o aluguel do “dia de serviço”, onde mulheres trabalham na enxada por uma diária de 15 reais e homens por uma diária de 20 reais. Não há trabalho com carteira assinada no povoado, de igual forma, são poucos os que possuem a própria terra, sendo que a maioria sobrevive com a venda do “dia de serviço”, também chamados de meeiros.

As casas de produção de farinha são outra atividade produtiva, sendo que recentemente todas passaram por reformas para substituição dos fornos e tachos antigos por novos compostos de ferro, mais resistentes, seguros e higiênicos.
Com relação à habitação, ainda existem casas de barro. Ocorreu um projeto público de substituição dessas casas por de alvenaria, mas das 21 casas existentes, 13 ainda permanecem construídas em barro. De acordo com a agente de saúde do povoado, senhora Maria Josefa da Cruz lima, o médico comparece ao povoado uma vez por semana, sempre as quintas. O posto é formado por uma equipe que, além da agente de saúde, conta também com um enfermeiro e um auxiliar de enfermagem, mas está instalado em local improvisado (Fig. 02).

Fig. 02 – Garagem onde funciona o Posto de Saúde do Povoado Zanguê
Fonte: Acervo Pessoal

De acordo com o último levantamento realizado pelo posto de saúde, o povoado é composto por uma comunidade de 123 famílias, cerca de 337 habitantes e 11 residências de veraneio, ou também chamadas de segundas residências. Desta população, 33 dos habitantes são idosos acima de 60 anos, dos quais 08 possuem mais de 80 anos. Adultos entre os 20 e 39 anos são ao todo 114, sendo 56 homens e 58 mulheres, além de 21 crianças abaixo de 5 anos. Desta forma, os demais habitantes ou possuem entre os 6 e os 19 anos, ou estão entre os 40 e os 59 anos, conforme fica melhor demonstrado no gráfico a seguir.


Gráfico 01 – Faixa Etária dos Habitantes do Povoado Zanguê
Fonte: Acervo Pessoal, de acordo com dados da Agente de Saúde do Povoado

Aspectos básicos como a energia elétrica e água potável não são um problema, visto que toda a região possui rede elétrica e as casas, por sua vez, são providas de poços artesianos. Com relação à telefonia, a maior parte dos moradores possui celular que funciona bem por conta das antenas de sinal das operadoras que se situam no topo da Serra de Itabaiana e dentro dos limites do Povoado. O único orelhão do povoado encontra-se com defeito (fig. 03).


Fig. 03 – Antena retransmissora de sinal com o único orelhão do Povoado Zanguê
Fonte: Acervo Pessoal

Um fato interessante a ser destacado é a existência de piscinas naturais no município. Muitas nascentes, na época de chuvas, transbordam e transformam-se em córregos naturais. Estes, aliados a depressões existentes no solo, são os responsáveis pela existência dessas piscinas. Algumas pertencem a áreas privadas, outras são uma das poucas formas de lazer da região, visto que o Povoado não dispõe de espaços para atividades recreativas de crianças e adultos, com exceção de um campo improvisado de futebol.

Outra forma de lazer é a realização de serestas nos finais de semana, visto que o povoado não conta com grupos folclóricos. Segundo relatos, a reunião não apresenta registros de violência ou grande insegurança. Há casos isolados de furto da fiação elétrica ou pessoas mal intencionadas que buscam auxiliar idosos nos processos de aposentadoria e retiram destes parte dos benefícios sociais adquiridos. A polícia passa pelo povoado ocasionalmente para realizar patrulhas de rotina. Não há posse particular de armamento, visto que uma campanha governamental incentivou a entrega de espingardas e demais armamentos utilizados no campo.
Em termos de educação, o Povoado possui uma escola de ensino fundamental que abrange o 1º ciclo, ou seja, da 1ª a 4ª série / 1º ao 5º ano, a Escola Estadual Cícero José de Souza. Fundada em 1948, o terreno pertencia ao senhor Cícero, razão da homenagem. Desde a inauguração, a última grande reforma ocorreu durante a ditadura militar em 1970 (Fig.04).


Fig. 04 – Vista Frontal da Escola de Ensino Fundamental
Fonte: Acervo Pessoal

Após essa etapa, existem ônibus escolares para transportá-los nos três turnos (manhã, tarde, noite) às escolas dos municípios vizinhos. No ano vigente, existem 29 crianças estudando entre a 1ª e a 4ª séries, sendo apenas 04 nesta última série. Algumas crianças com menos de 16 anos ainda se encontram sem estudar por orientação dos pais ou abandono próprio. Desta forma, além de muitos adultos analfabetos, existem também jovens nessas condições.
Os professores que ministram aulas na escola não pertencem a comunidade, eles são residentes da capital, Aracaju. O corpo administrativo, de igual modo, não é do povoado, visto que o diretor, por exemplo, possui moradia em Itabaiana.
Um ponto a ser destacado é a religiosidade do Povoado, visto que todos os membros da comunidade fazem parte da Igreja Católica Apostólica Romana. A população não aceita outro tipo de culto religioso, como os protestantes e o candomblé, por exemplo. A padroeira do povoado é a Santa Nossa Senhora do Carmo e a única igreja é denominada Sagrado Coração de Jesus (Fig. 05 e 06) e possui cultos duas vezes por mês, quando um padre de paróquia próxima comparece para celebrar a missa.



Fig. 05 – Vista externa da Igreja do Povoado Zanguê Fig. 03 – Vista Interna da Igreja do Povoado Zanguê
Fonte: Acervo Pessoal Fonte: Acervo Pessoal

A infra-estrutura de acesso ao povoado é inexistente, visto que depois da rodovia principal pertencente ao perímetro urbano de Itabaiana, todo o acesso se dá por meio de estreitas estradas de barro, abertas entre as propriedades particulares. O transporte público também não existe, obrigando a comunidade a deslocar-se através dos chamados “moto-taxistas” ou através de taxi que, em média, cobra 20 reais pelo deslocamento à Itabaiana. O elevado preço ocorre por conta das condições ruins de acesso (Fig.07 e 08).


Fig. 07 – Via de Acesso ao Povoado Fig. 08 – Riacho que define limites do Povoado
Fonte: Acervo Pessoal Fonte: Acervo Pessoal

Não existe coleta de lixo e a população o reúne nos quintais para enterrar ou queimar, sendo o último mais comum. Apenas 01 ou 02 casas ainda não possuem banheiro e realizam as necessidades sem nenhum tipo de higienização.
A comunidade não possui associação beneficente. Quando necessário a comunidade se reúne espontaneamente para coletar materiais e realizar um leilão em benefício da família que esteja dependendo de ajuda. Ressalta-se, porém que quase todas as famílias fazem parte do programa social do governo federal e recebem a “bolsa família”, ou seja, quantia paga em dinheiro para famílias carentes que cumpram determinados requisitos. Por exemplo, a família que não recebem é porque não mantém os filhos na escola.

Há uma grande dependência com relação à política. Cerca de 80% dos moradores apóiam o partido da atual prefeita e recorrem a ele para buscar auxílios emergenciais, como medicamentos, materiais de construção, entre outros. Existem duas associações de moradores, cada uma apadrinhada por um partido político, sendo que o município de Itabaiana é dividido principalmente em dois partidos adversários.
Existe no povoado Zanguê especulação imobiliária por conta da vinda de pessoas do sertão que buscam terras mais próximas dos centros urbanos. Diante dessa situação, algumas pessoas tendem a deixar o povoado para morar na zona urbana de Itabaiana, reduzindo com isso os laços familiares. Não há comprovação de que a comunidade seja descendente quilombola por conta dessa questão de posse da terra e de inúmeros casamentos ao longo da história.

Por fim, Sebrão (2003) tece uma poética comparação sobre o Povoado Zanguê, publicada originalmente no Jornal O Nordeste, em 18 de junho de 1941:
Zanguê, se quizéssemos filosofar com uma hipótese, poderíamos comparar a uma jovem muito bela, airosamente pedalando na estrada do Sonho e, de súbito, caindo da bicicleta na realidade da Vida.

Acerca da origem negra no Zanguê, Povoado de Itabaiana, não há registros claros. Entretanto, autores como Bezerra (1984) comentam o refúgio de negros: “Nem faltaram mesmo, entre nós, os guineanos islamisados, que certamente terão congregado os foragidos nos mocambos do rio Real e de Itabaiana” (p. 107).


4– CONCLUSÃO

É importante salientar que este estágio enfrentou grandes dificuldades em termos de coleta de dados. Entretanto, foi possível compreender a importância do povo quilombola para a formação da nação brasileira. Por outro lado, a escassez de fatos documentais não permite a comprovação de que a comunidade Zanguê seja descendente de quilombolas, não abrindo a possibilidade de ingressar no INCRA com o processo de reconhecimento da comunidade enquanto de origem quilombola.
Entretanto, esse estudo revela uma comunidade rica em termos de patrimônio natural e carente de novas atividades econômicas. Sendo assim, o ecoturismo poderia ser uma alternativa para a qualificação profissional dos jovens e a geração de empregos dentro da comunidade, garantindo a permanência dessa população no campo e, evitando assim o êxodo rural.

Para a efetivação dessa proposta, deve ser contínuo o processo de melhorias na qualidade de vida da população, com projetos que estimulem o artesanato e a fabricação de quitutes caseiros entre as mulheres, com obras de infra-estrutura, saneamento básico, reciclagem do lixo, entre outras.
Além destes, outros problemas ainda mais emergenciais devem ser solucionados, a exemplo das ainda existentes casas de barro, das condições precárias do posto de saúde, das casas que ainda não dispõe de banheiro, da ausência de meios de transporte que liguem o povoado ao município de Itabaiana, excetuando-se a opção dos “moto-taxistas”.
A comunidade também carece de estímulo para a preservação cultural que se perdeu com o tempo. A inexistência de espaços de lazer faz com que os riachos da região sejam degradados. Este seria um outro ponto crucial a ser resolvido pela verdadeira prática ecoturística.

Enquanto sugestões, seria possível a criação de trilhas que levassem pessoas do povoado à Serra de Itabaiana, além de projetos de turismo rural, com passeios monitorados entre as plantações e a criação de animais. Os riachos (Fig. 09) e as piscinas naturais são outra opção interessante em termos de ecoturismo. Além destes, a existência de casas de farinha é outro ponto a ser explorado, visto que representa uma atividade arduamente trabalhada durante muitos anos e de grande valor dentro da cultura nordestina (Fig. 10).


Fig. 09 – Riacho que entrecorta o Povoado Fig. 10 – Vista do interior de uma Casa de Farinha
Fonte: Acervo Pessoal Fonte: Acervo Pessoal

Por fim, tem-se que mesmo não sendo reconhecida enquanto Comunidade Quilombola, o Povoado Zanguê possui muitas riquezas a serem apresentadas a toda sociedade, desde que haja um planejamento, um empenho do poder público e da iniciativa privada, visto que a comunidade já se mostrou disposta a receber bem os visitantes.


REFERÊNCIAS

BEZERRA, Felte. Etnias Sergipanas; contribuições ao seu estudo. 1ª reedição. Aracaju: Editora Gráfica J. Andrade, 1984.

SEBRÃO, Sobrinho. Fragmentos de Histórias Municipais e Outras Histórias. Aracaju: Instituto Luciano Barreto Junior, 2003.

Relação de Comunidades Remanescentes de Quilombos. INCRA – PR, 2003.2004 Brasília – DF 2004.

ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE ANTROPOLOGIA – ABA. Disponível em: . Acesso em 20 de junho de 2008.

INSTITUTO NACIONAL DE COLONIZAÇÃO E REFORMA AGRÁRIA - INCRA. Disponível em: . Acesso em 13 de julho de 2008.


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